4. ESPECIAIS  LONDRES 2012  8.8.12

1. A PTRIA DE BIQUNI
2. O MAIOR CAMPEO E A SOMBRA CHINESA
3. FRIA, FOCADA E VENCEDORA
4. LGRIMAS E NADA MAIS
5. O QUE AINDA PODEMOS ESPERAR

1.  A PTRIA DE BIQUNI

Com seus uniformes arejados, vlei de praia seduz o pblico nos Jogos de Londres e agora luta para ser encarado como esporte srio, no mera diverso de fim de semana. D para acreditar?
Por Edson Franco, enviado especial a Londres

 SENSAO - Mulheres exuberantes, clima de praia e roupas minsculas combinao perfeita para recorde de pblico
 
Mulheres jovens com um mnimo de roupa, clima praieiro, muita bebida, grupos de dana em traje de banho, msica alegre e arquibancadas lotadas. A combinao desses elementos tem feito do vlei de praia a maior sensao dos Jogos de Londres. A esta altura  quase impossvel conseguir um ingresso para as prximas fases. A seduo j comea pelo local escolhido para as partidas. Instalada no Horse Guards Parade, a arena dedicada ao esporte fica no centro do poder britnico, a menos de 100 metros do nmero 10 da Downing Street, residncia do primeiro-ministro David Cameron. Das arquibancadas,  possvel admirar o Big Ben, o Parlamento e a roda gigante London Eye. Isso, sem contar as desejadas cheerleaders, que provavelmente so o encanto maior a levar multides s arenas, tem estimulado os homens de terno que circulam por ali a colocar de lado a sisudez e se deixar levar pela euforia dos torcedores pintados e das famlias.

Na tera-feira 31, o prefeito de Londres, Boris Johnson, esteve na arena. Com seu smartphone, registrou os saques, cortadas e levantamentos da dupla brasileira feminina formada por Maria Antonelli e Talita Rocha, que bateu as alems Sara Goller e Laura Ludwig. Um dia antes, outro poderoso que circulou por ali foi o prncipe Albert II de Mnaco. Cercado pelos reprteres, disse que  muito f do esporte. Mandei at construir a minha prpria quadra.

Ao mesmo tempo que rene tantas atraes paralelas, o esporte motiva crticas. O apresentador de tev e escritor ingls Giles Coren defende a ideia de que o vlei de praia no exige habilidades especiais e que, por isso, no deve ser tratado como esporte. Se ele , por que no o frisbee?, provocou em um artigo para o jornal britnico The Times. Para encorpar a tese, alguns torcedores ignoram as duplas.  o caso do cozinheiro ingls Lloyd Edwards, 27 anos. Vim aqui para ver mulher pelada, disse, sem cerimnia.

Para a Federao Internacional de Voleibol, essa histria de espectadores que no enxergam o jogo por trs dos biqunis existe desde quando o esporte estreou nas Olimpadas, em Atlanta-1996. No incio, o pblico vem atrado pelo pacote que oferecemos de esporte mais entretenimento, diz Richard Baker, porta-voz da entidade. Mas o nvel de reteno tem sido alto, pois, a cada ano, aumenta o nmero de torneios internacionais e pases inscritos nas competies. Em 2009, havia apenas 76 eventos reunindo naes. No ano passado, foram 149. H trs anos, a federao criou a Continental Cup, torneio classificatrio para a Olimpada. Assim, cos cinco continentes passaram a abrigar campeonatos que contavam pontos para os interessados no sonho olmpico. A federao internacional tambm lanou em 2011 o programa Cool Volley. Por meio dele, a entidade se compromete a fornecer s escolas todas as ferramentas necessrias para introduzir as crianas no esporte. O programa foi iniciado em Portugal e deve ganhar o mundo ainda neste ano.

O poder de atrao que o esporte vem demonstrando em Londres faz os cartolas da modalidade esfregar as mos de ansiedade pensando nos prximos Jogos, em 2016, no Rio de Janeiro. Se deu certo aqui, imagine l. O Brasil  um pas repleto de pessoas apaixonadas pelo vlei de praia. Ser uma excepcional oportunidade para disseminar o esporte, comemora Richard Baker, da Federao Internacional de Voleibol. Ser tambm uma chance de diagnosticar o potencial do vlei de praia num local j to acostumado aos biqunis.


2. O MAIOR CAMPEO E A SOMBRA CHINESA

Com 21 medalhas conquistadas em trs Olimpadas, Michael Phelps alcana o olimpo dos atletas enquanto assiste  ascenso dos nadadores chineses
Por Luiz Fernando S, enviado especial a Londres

 GLRIA - Phelps na piscina: a consagrao como o maior da histria dos Jogos
 
Os cronmetros do Centro Aqutico no Parque Olmpico de Londres marcaram mais que tempos de provas na semana passada. Registraram histria. Exibiram resultados que realimentaram rivalidades que vo muito alm das raias da piscina olmpica. Na tera-feira 31, exatamente s 21h04 no horrio londrino, quando a enorme mo direita do americano Michael Phelps pressionou a placa eletrnica na borda de chegada, o tempo parou. O homem que tantas vezes desafiou o relgio vivia o momento preciso de sua glria, aquele que o consagrou como o maior atleta olmpico de todos os tempos. Ao fechar o revezamento americano na primeira colocao na prova do 4x200 metros livre, Phelps garantia seu 19 pdio em Olimpadas. At ento, apenas a ginasta russa Larisa Latynina, que chegou a 18 premiaes nas Olimpadas, rivalizava com ele.
 
Phelps, mais que ningum, simboliza uma era de domnio absoluto dos americanos nas piscinas olmpicas. Um perodo que, assim como a vitoriosa carreira do campeo, parece estar em seu eplogo. O americano ainda foi grande em Londres. At a noite da sexta-feira 2 havia ganho outros trs ouros e duas pratas, atingindo a marca de 21 medalhas, 17 douradas. Mas passou por revezes incomuns. Nos 200 metros borboleta, prova em que no era batido havia mais de uma dcada, foi superado na ltima braada pelo sul-africano Chad le Clos. 
 
Enquanto ele se despede das piscinas desponta uma jovem chinesa de 16 anos, Ye Shiwen, ganhadora de dois ouros em Londres. Seu desempenho assombrou o mundo e foi usado como munio na guerra fria do esporte. s 20h11 do sbado 28, primeiro dia de competies, Ye mergulhou para estraalhar o recorde mundial dos 400 metros medley. Bateu na placa eletrnica 4min28s43 depois. O que mais impressionou foi o fato de a menina ter percorrido os ltimos 50 metros de prova em 28s93. Do assombro  suspeita foi outro segundo. A mais veemente manifestao partiu de John Leonard, diretor-executivo da Associao Mundial dos Tcnicos de Natao. Afirmou que, no passado, sempre que resultados assim apareceram descobriu-se depois que havia algo de errado.

DVIDA - Aos 16 anos, a chinesa Ye Shiwen assombrou o mundo e causou polmica: seria doping?
 
A princpio, porm, no h nada alm de mrito nas marcas da chinesa  na tera-feira 31, Ye ganhou ouro com recorde olmpico nos 200 metros medley. O prprio Comit Olmpico Internacional (COI) divulgou nota referendando seu sistema de preveno de doping. Se houvesse trapaas, ns pegaramos, afirmou Mark Adams, porta-voz do COI. Na China, as acusaes transformaram-se numa afronta. Trata-se de uma reao preconceituosa, disse Jiang Zhixue, chefe de doping da administrao central do esporte da China.
 
A tmida menina com 1,72 m e 64 quilos, que aos 6 anos deixou a casa dos pais para morar num centro de desenvolvimento de nadadores e hoje vive e treina parte do ano na Austrlia, desponta no momento em que a disputa por medalhas olmpicas reflete o novo bilateralismo poltico. Disputando medalha a medalha com a China a liderana geral dos Jogos (no final da sexta-feira, os EUA tinham 21 ouros, um a mais do que os chineses), os americanos assistem ao avano dos adversrios em um de seus mais tradicionais domnios. At a quinta-feira, tinham somado seis medalhas a menos que em Pequim, enquanto os chineses passavam de um para quatro ouros.


3. FRIA, FOCADA E VENCEDORA

A conquista do primeiro ouro do Brasil em Londres por Sara Menezes mais as trs medalhas de bronze garantem a melhor participao do esporte na histria da Olimpada e mostram que a modalidade est no caminho certo
 por Amauri Segalla e Frederic Jean (fotos), enviados especiais a Londres

 CONCENTRAO - A tcnica Rosiclia e a judoca Sarah momentos antes da luta que garantiria o ouro indito para a modalidade
 
Na tera-feira 31, s 14h30 de Londres, a piauiense Sara Menezes, primeira brasileira a ser campe olmpica no jud, est sentada  mesa do restaurante do Hotel Ramada, que fica perto da arena Excel, palco das competies de luta dos Jogos Olmpicos. Enquanto uma mosca insiste em rodear o seu prato  contra fil com legumes cozidos , o judoca paulista Felipe Kitadai, medalhista de bronze na Olimpada, que descansa esparramado numa cadeira ao lado, consulta o smarthphone febrilmente. Ambos j passaram pela provao das lutas e esto ansiosos para saber se Leandro Guilheiro, at ento maior nome da seleo brasileira de jud, ganhou sua batalha. Cacete, o Leandro perdeu, grita Kitadai, depois de consultar a internet. A casa caiu, emenda Sarah. quela altura, eles achavam que o ouro de Guilheiro era lquido e certo e passaram, quase imediatamente, a entender o tamanho de seus feitos em Londres. Sarah entrou para um grupo de campees que s tem gente como Aurlio Miguel (ouro em 1988) e Rogrio Sampaio (ouro em 1992). Kitadai est numa categoria, a de peso-ligeiro, que jamais trouxe resultados internacionais para o Brasil e no fazia parte da lista de favoritos a medalhas  nem sequer a Confederao de Jud julgava possvel sua faanha. Parece inacreditvel que eu ganhei medalha e o Leandro no, diz Kitadai. S me toquei do que fiz quando o Aurlio veio me dizer que agora eu era igual a ele, afirma Sarah.

CONSAGRAO - Sarah e Rosiclia comemoram a vitria da piauiense de 22 anos: protagonistas da virada feminina no jud 
 
O jud brasileiro obteve em Londres o melhor resultado de sua histria. Depois de um comeo espetacular, com duas medalhas no primeiro dia de competies, as eliminaes de Leandro Guilheiro e Tiago Camilo, judocas mais respeitados do Brasil, despertaram injustas dvidas a respeito da fora do esporte no Pas. Com as medalhas de bronze da gacha Mayra Aguiar, na quinta-feira 2, e do peso-pesado Rafael Silva na sexta-feira 3, os questionamentos se dissiparam. O Brasil , sim, uma potncia do jud mundial. Melhor ainda: em Londres, em vez de nomes que brilharam em Olimpadas passadas, os resultados vieram de integrantes da nova gerao: Sarah tem 22 anos. Kitadai, 23, Mayra, 21, e Rafael, 25. Depois do primeiro dia de competies, criou-se uma expectativa to alta que tudo o que veio depois parecia ruim, diz Ney Wilson Silva, coordenador-tcnico da delegao brasileira. A juventude dos medalhistas cria enormes perspectivas para a Rio-2016. O otimismo  compartilhado por Aurlio Miguel. Fazia 20 anos que o Brasil no ganhava um ouro, diz o ex-campeo. Nossa participao foi espetacular.

DESCONTRAO - Na tera-feira 31, aps a vitria do sbado 28, Sarah Menezes e Felipe Kitadai almoam no hotel e passeiam pelas docas
 
As mulheres so as responsveis pelo melhor momento do jud brasileiro. Nem sempre foi assim. At 2005, as judocas do Pas eram tratadas como as primas pobres do esporte. Nem sequer havia treinamento especfico para elas, que tinham que se adaptar ao programa dos homens. Tudo mudou com a chegada da treinadora Rosiclia Campos, que assumiu a seleo feminina naquele ano. Em 2007, ela exigiu que as mulheres fossem se preparar para o Pan do Rio em Cuba, muito longe dos marmanjos, que rumaram para a Europa. quela altura, parecia loucura fazer um programa de treinos separado, mas os resultados comearam a aparecer. No Rio-2007, a seleo feminina alcanou a sua melhor marca em Pan-Americanos, com sete pdios. Na Olimpada de Pequim-2008, ganhou o bronze com Ketleyn Quadros e, no Mundial de Paris do ano passado, das cinco medalhas individuais, trs foram conquistadas por mulheres. A evoluo culminou nas duas medalhas olmpicas em Londres. Eu sei do meu mrito nesse processo, diz Rosiclia. Encarei presidentes e at monitorei o site da Confederao para ver se no tinha mais notcias dos homens.
 
Esporte brasileiro com mais medalhas e nico a subir ao pdio nas ltimas oito Olimpadas, o jud tem muitas lies a ensinar a outras modalidades. A comear pela preparao. Pela primeira vez na histria, cada judoca chegou a uma edio olmpica com direito a um sparring. Tambm foram os nicos do Pas que puderam usufruir de um hotel, localizado em frente ao local das competies e disponvel para os competidores que quisessem relaxar entre uma luta e outra. A comisso tcnica contou com 18 profissionais e um intenso trabalho psicolgico foi feito para evitar tremedeiras. No d para reclamar de nada, diz Guilheiro, que terminou a Olimpada em stimo lugar. Eu perdi por minha prpria culpa.

 BRONZE - Nova gerao de judocas brasileiros, que tem tudo para brilhar no Rio 2016: Mayra Aguiar, 21, Felipe Kitadai, 23 e Rafael Silva, 25

Claro que no d para atribuir apenas  estrutura a conquista de medalhas. Sarah Menezes  exemplo disso. Ela no faz o tipo espalhafatoso e parece que est o tempo todo escondendo o jogo. Sabe aquele tipo de gente para quem voc no d nada, mas depois percebe que  especial?, pergunta a tcnica Rosiclia Campos. Ela  assim, quietinha, mas uma guerreira. Na tera-feira 31, a reportagem de ISTO passou algumas horas ao lado de Sarah e Felipe Kitadai. Cara, fiquei tanto tempo com a medalha que at quebrei ela, disse o judoca, que recebeu outra aps espatifar a sua no chuveiro. Sarah, no. Coloquei a minha em cima de uma mesa e nem lembrei mais dela. Ser indiferena? No,  que eu sou fria mesmo, diz. Nunca fiquei nervosa antes de uma luta. Eu vou l e fao o meu trabalho. Com o ttulo em Londres,  natural que aumente a presso para uma medalha em 2016. Presso?, pergunta a campe. Pode botar que eu no ligo. Sou nordestina.


4. LGRIMAS E NADA MAIS

A exemplo do que ocorreu em Pequim-2008, ginastas brasileiras tm atuao fraca, so eliminadas e choram: o problema pode estar na cabea delas
por Edson Franco, enviado especial a Londres

 TENSO - Ethiene Franco reza durante a performance de sua companheira de equipe, Harumy Freitas
 
As ginastas nacionais so troncudas e pequenas, como as estrangeiras que ficaram com as medalhas em Londres. Tm agilidade, flexibilidade, fora e criatividade. Saltam, giram, voam e aterrissam com a competncia das campes. Mas isso tudo no tem resolvido. Em Campeonatos Mundiais e Pan-Americanos, as meninas j conquistaram pdios que prenunciavam a chegada de uma era vencedora da ginstica artstica do Pas. No entanto, a cada quatro anos a iluso se desfaz, pois nos palcos olmpicos elas no conseguem mostrar do que so capazes. Invariavelmente, falham justamente na hora em que o mundo todo est olhando, indcio de que o corpo est funcionando bem, exceto por um rgo: o crebro.
 
Os exemplos de desequilbrio se acumulam. No sbado 28, Daniele Hyplito viu seu irmo, Diego, sofrer uma queda durante a apresentao no solo. No dia seguinte, na mesma modalidade, ela tambm caiu. Eu vim meio tensa para a competio. Procurei me focar, mas a queda dele mexeu comigo, disse a atleta logo aps a desclassificao. A equipe nacional terminou na 12 e ltima colocao, ficando fora da zona de oito classificados. Alm disso, nenhuma atleta chegou a uma final individual, o que no acontecia desde a Olimpada de Atlanta, em 1996 (leia quadro).

Outro problema de cunho psicolgico foi o nervosismo da ginasta Harumy Freitas. Foi sua estreia nos Jogos. Ela substituiu Adrian Gomes, cortada por leso quando a equipe brasileira j fazia aclimatao em solo ingls. Ela admitiu que a tenso por ter entrado no time em cima da hora prejudicou o seu desempenho na trave. E chorou. Mesmo a mais madura atleta da equipe no conseguiu se controlar aps a desclassificao naquela que deve ser a sua ltima Olimpada. Muita gente queria que eu no estivesse aqui. Vim, competi e no tive nenhuma queda, desabafou em tom raivoso Daiane dos Santos, que, aos 29 anos, deve se aposentar no fim do ano.
 
Segundo os responsveis pelo acompanhamento das atletas, o resultado em Londres no decorre da falta de cuidado com questes emocionais. Temos dois psiclogos monitorando o time de ginstica aqui, diz Berenice Arruda, chefe da equipe de ginstica artstica. Ela acrescenta que o Comit Olmpico Brasileiro (COB) leva em considerao os aspectos psicolgicos na preparao. Se a ginasta est sendo acompanhada por um profissional no seu clube, damos sequncia ao trabalho quando a atleta  convocada. Com a experincia de quem participou da Olimpada de Atlanta, onde ajudou o Brasil a ganhar um bronze, a ex-jogadora de vlei Ana Moser defende que a ajuda deve ir alm daquilo que os psiclogos podem fazer. Na opinio dela,  preciso que as atletas passem a maior parte do tempo disputando torneios difceis, com concorrentes do mais alto nvel. Diferentemente do jud, esse tipo de competio no  muito comum para as ginastas nacionais.

Alm da presso da competio, as atletas sofreram com aspectos vindos de fora dos ginsios. Para o ciclo olmpico que se encerra em Londres, a confederao trocou o centro de treinamento montado em Curitiba por outro no Rio de Janeiro. Com a sada do ucraniano Oleg Ostapenko, que ficou  frente da seleo de 2002 a 2008, Georgette Vidor assumiu a coordenadoria tcnica da seleo. Para ela, o resultado decorre da falta de uma poltica de renovao da equipe, e o Brasil pagou o preo por ter concentrado demais o trabalho da ginstica em Curitiba. Diante desse quadro, Georgette afirma no estar decepcionada com o baixo rendimento das atletas brasileiras nos Jogos. Achava que o grupo poderia ficar com a nona colocao e esperava que a Jade fosse para a final do salto, diz, referindo-se a Jade Barbosa, cortada por divergncias em relao a patrocnio e uniforme.
 
A sada de Jade se deu faltando um ms para o incio dos Jogos, fato criticado pela psicloga do esporte Katia Rubio, da Universidade de So Paulo (USP). Eles (dirigentes) no deveriam deixar essas questes para serem aparadas prximo do incio da competio. Na opinio dela, o desempenho desastroso  reflexo da falta de planejamento e no deve ser debitado na conta das atletas. Independentemente de quem seja a culpa, no  o momento de promover uma caa s bruxas. A hora  de planejar para que no Rio, em 2016, as meninas estejam com os msculos e o crebro no lugar.


5. O QUE AINDA PODEMOS ESPERAR

Com o bronze de Cesar cielo, O brasil termina sua primeira semana olmpica com seis medalhas e agora aposta no futebol, na vela, no atletismo e nas duplas do vlei de praia para tentar superar pequim-2008
por Amauri Segalla e Luiz Fernando S, enviados especiais a Londres

 FRUSTRAO - Medalha de bronze decepciona Cielo, que reconhece ter errado a estratgia
 
Foi tudo muito rpido. O sinal sonoro de largada, as pernas se estendendo no impulso  frente, o corpo se projetando para a gua continda no retngulo azul, as braadas frenticas em apneia, a batida na placa de chegada, j com o corpo se virando para o placar, o soco na gua, a certeza da vitria, a ovao de 17 mil torcedores. Tudo isso no durou 22 segundos. Ao final deles, o Brasil fechava com gosto de frustrao na piscina uma semana em que obteve seis medalhas e, na soma geral, teve na Olimpada de Londres um desempenho pouco superior ao obtido na primeira semana dos Jogos de Pequim. Para o nadador Cesar Cielo, porm, o resultado foi amargo. Ao olhar para o placar na noite da sexta-feira 3, Cielo viu seu nome no terceiro lugar  atrs do francs Florent Manaudou e do americano Cullen Jones --, garantindo um bronze. Errei na estratgia, disse Cielo logo depois da prova. No deveria ter disputado os 100 metros. Deixou escapar, assim, a supremacia de homem mais veloz das piscinas, conquistada quatro anos atrs. E mesmo a posio de principal nadador do Brasil passou para as mos do surpreendente Thiago Pereira, que faturou uma prata nos 400 metros medley, ficando  frente at mesmo do mito Michael Phelps, que chegou em quarto. Para o Brasil, ainda  possvel atingir os mesmo nmero de ouros (foram trs) obtidos em Pequim, com boas possibilidades no futebol, no atletismo, na vela e no vlei de praia.
 
Apesar de encerrar sua participao com a conquista de medalhas, a natao brasileira no atingiu em Londres a meta estabelecida pelos gestores do esporte no Pas. O objetivo de superar as seis finais alcanadas em Atenas-2004 e Pequim-2008 no foi alcanado. Dos 20 nadadores que vieram para a Olimpada, s trs chegaram a uma final. O Brasil vem promovendo um processo de renovao, mas que dever trazer resultados slidos no Rio, em 2016, diz Ricardo de Moura, chefe da equipe de natao. Csar Cielo e Thiago Pereira j eram talentos consagrados e conhecidos do torcedor brasileiro. Novidade mesmo, apenas o carioca Bruno Fratus, quarto colocado nos 50 metros livre, apenas dois centsimos mais lento que Cielo. Aos 23 anos, Fratus segue a tradio brasileira de formar velocistas (Gustavo Borges e Fernando Scherer foram medalhistas em provas rpidas). Trata-se de uma estrela em asceno. Foi um dos doze atletas de todo o mundo escolhidos para participar do filme oficial da Olimpada de Londres. Isso obviamente  positivo, mas onde esto os nadadores capazes de brilhar em outras categorias? At Thiago Pereira, prata nos 400 metros medley,  herdeiro de uma prova em que o Brasil tem um passado de conquistas (Ricardo Prado foi recordista mundial e medalhista de prata tambm nos 400 metros medley, em Los Angeles-1984). Outra deficincia evidente da natao brasileira  a falta de nomes de qualidade entre as mulheres. H muito tempo espera-se que campes apaream, mas isso est muito longe de acontecer. Realmente esse  um problema srio, diz Ricardo Prado, atual gerente de competio esportiva do Comit Organizador dos Jogos Rio 2016. Talvez o ideal seja selecionar algumas meninas e formar uma seleo permanente.
 
"Errei na estratgia. No deveria ter disputado os 100 metros." - Cesar Cielo
 
A uma semana do encerramento dos Jogos, ainda  cedo para fazer um balano preciso sobre o desempenho brasileiro em Londres. Mas alguns sinais so claros. Em primeiro lugar: a to esperada diversificao de vitrias dificilmente vir nesta Olimpada. Para se tornar uma potncia  ou pelo menos para ficar entre os 10 primeiros no quadro de medalhas da Rio 2016  , o Brasil no pode depender apenas de meia dzia de modalidades (vela, jud, natao, vlei de praia, futebol e vlei).  exatamente isso o que se v em Londres. A fora motora da performance brasileira continua a ser o jud e a natao  os mesmos de sempre. Outra preocupao diz respeito  idade de nossas principais estrelas olmpicas. Na vela, o Brasil depende do talento excepcional de Robert Scheidt, que tem 39 anos, mesma idade de Emanuel, reconhecido como melhor jogador de vlei de praia do mundo. Nos esportes coletivos, tambm no se v gnios aparecendo. No vlei, as geraes de Giba, 35 anos, e Sheilla, 29, demonstram certo cansao e no basquete feminino no h ningum que parea capaz de fazer o Brasil voltar ao topo.
 
Para ser potncia olmpica, o brasil no pode depender de meia dzia de modalidades
 
Apesar do sinal de alerta, h motivos para comemorar. O boxe brasileiro colocou, at a tarde da sexta-feira 3, trs lutadores nas quartas-de-final de uma Olimpada, desempenho indito na histria. A delegao recorde, formada por 10 atletas, tenta quebrar um jejum de 48 anos sem medalhas, que vem desde o bronze de Servlio de Oliveira, no Mxico em 1968. Temos boas chances de subir ao pdio, diz Otlio Toledo, chefe da equipe de boxe. Toledo  cubano e foi contratado para trazer ao Brasil a excelncia de seu pas na modalidade. O trabalho, centrado em intercmbios realizados nos pases que dominam os ringues (alm de Cuba, naes do leste europeu), j deu resultado: verton Lopes, maior esperana brasileira em Londres,  o atual campeo mundial da categoria meio-mdio-ligeiro. A contratao de estrangeiros, vista at pouco tempo atrs com desdm por algumas federaes, est fortalecendo diversas modalidades. Entre os esportes coletivos, ningum surpreendeu tanto quanto as meninas do handebol, que agora se apresentam como srias candidatas ao pdio. Elas so lideradas pelo dinamarqus Morten Soubak, que tem no currculo ttulos europeus. No renascido basquete masculino, o chefe  o argentino Rubn Magnano, campeo olmpico por seu pas. Chegamos fortes a Londres, mas a meta maior  a Rio 2016, diz Marcus Vincius Freire, superintendente do Comit Olmpico Brasileiro.
